A
afirmação da identidade indígena no Brasil se tornou um desafio a partir do
momento em que os portugueses consolidaram seu domínio sobre essas terras. Quem
afirmou sua condição de povo originário nos últimos cinco séculos teve que
enfrentar a ameaça do extermínio físico –quando somente a terra interessava -e do
extermínio cultural –quando também se ganhava algo com o índio vivo, se este
perdesse sua cultura. O processo continua em curso, visto que as terras dos
indígenas ainda são cobiçadas e eles próprios, muitas vezes, também o são –para
o trabalho mal-pago ou semi-escravo, para consumir produtos ou para engrossar
os rebanhos das igrejas.
Os parentes que não foram mortos de
alguma maneira (por arma ou por doença) passaram por um processo que se
repetiu, ao longo do tempo, de norte a sul do país: o povo era expulso de sua
terra ancestral e colocado em outra, submetida a controle externo; costumes eram
proibidos e novas práticas impostas (vestimenta, língua, religião, formas de
moradia e trabalho); por fim, as novas gerações não eram mais registradas com o
nome do povo ao qual pertenciam. As mudanças em seus costumes faziam com que os
indígenas não fossem mais considerados como tais pela sociedade envolvente, e
quando o nome do povo deixava de figurar nos registros de nascimento, suas
terras eram consideradas sem dono. Foi assim que surgiram caipiras e caboclos
pelos sertões do Brasil, pessoas sem árvore genealógica e sem herança, servindo
gente de autoproclamada origem europeia.
Se nem após a Constituição de 1988 o direito do indígena
à vida está assegurado, que dirá antes dela. Muitos sobreviventes do saque ao
território tradicional e da caçada por escravos ou semi-escravos adotaram o
silêncio como proteção: num momento em que se dizia, aberta e impunemente, que
“índio bom é índio morto”, o pertencimento indígena era segredo a ser
muitíssimo bem guardado. Para muitos povos, como os Puri, a condição de
sobrevivência numa sociedade hostil foi justamente incorporar costumes alheios
na vida social, ao mesmo tempo em que se mantinha num nível mais familiar e
pessoal alguns elementos da cultura tradicional.
Atualmente, além da bala e da cruz, outros
obstáculos se colocam no caminho daqueles que ousam ser indígenas neste país: a
cultura de massa e o crivo dos antropólogos. O primeiro afeta preferencialmente
os mais jovens, e os motiva a abandonar suas tradições pela sedução do consumo
–inclusive de símbolos que acenam com a perspectiva de “integração” na
sociedade que os envolve. O segundo obstáculo procura barrar justamente aqueles
que, apesar do massacre cultural e físico, se recusam a morrer como indígenas e
afirmam esta identidade –que acaba sendo contestada pela suposta autoridade
científica de um especialista.
O debate científico a respeito das
culturas humanas já reconhece, há algum tempo, que elas não são estáticas e que
costumam incorporar e ressignificar elementos de origem externa. No entanto, costuma-se exigir das culturas indígenas
uma suposta “pureza” que se torna impossível quando há contato com outros
povos. Ninguém se atreve a questionar a autenticidade da cultura grega antiga
por terem estudado muitos de seus sábios no Egito, trazendo de lá muita
influência. Ninguém fará o mesmo com os romanos antigos pela influência grega
que traziam. Não se fará isso com todos os povos da Europa –que ainda ostentam
na formação da nacionalidade muita coisa de tempos pré-romanos –por seu caldo
cultural comum trazido do império romano, e também do cristianismo. Não se faz
isso com os povos orientais por adotarem costumes e ténicas do ocidente. Não se
cobra dos negros brasileiros ou norte-americanos que vivam conforme os costumes
de seus antepassados africanos. Mas é cobrado dos indígenas que vivem no Brasil
que mantenham suas culturas no mesmo patamar de antes da chegada dos
portugueses, que recusem toda a influência europeia ou de qualquer parte do
mundo; ainda que os brasileiros que os rodeiam não se sintam menos autênticos
por usarem várias palavras em inglês, por usarem tecnologia japonesa ou por
terem uma base judaica na religião –ou mesmo por chamarem de português uma
língua que é, em grande parte, banto e tupi. Existem ainda uma série de
conquistas tecnológicas (celular e computador, por exemplo) que são de uso comum
no mundo todo, e que não são consideradas “descaracterizantes” para nenhum povo
que as utiliza –a não ser para os indígenas.
A exigência de que o indígena não
possa incorporar elementos externos à sua cultura dificulta que ele o faça de
modo respeitoso para com suas tradições –aproveitando somente o que interessa
–e cria uma situação em que, ou ele assume que está deixando de ser indígena e
o faz de vez, ou nega a influência da sociedade envolvente, fechando-se numa
tradição que perde, a cada dia, as condições materiais para sua existência.
Para aqueles povos que, expulsos de
suas terras e sofrendo perseguição, conseguiram manter até hoje sua identidade
apoiada na parte preservada da cultura e no senso coletivo de pertencimento –protegidos
pelo manejo de elementos culturais não-indígenas que permitiram a eles não
serem reconhecidos e perseguidos como tal –resta a acusação de parte da
antropologia de que eles não são mais
indígenas. Cabe perguntar tanto sobre a pertinência desta afirmação –baseada
na negação da possibilidade do próprio grupo ou indivíduo afirmarem seu pertencimento,
conferindo esta autoridade a um membro externo à cultura em questão –como
também a quem interessa que se negue
a identidade dessas pessoas –na medida em que o reconhecimento de povos
indígenas abre espaço para a reivindicação de terras que tradicionalmente foram
ocupadas por eles. Milhares de anos de
cultura parecem valer menos que duzentos anos de ciência e de leis que procuram,
de modo muito evidente, legitimar o saque das terras indígenas e a dominação
cultural imposta a essas populações.
Além dos povos que lutam para
continuarem existindo como tal de fato e de direito –vivendo ou não em suas
terras tradicionais –há ainda gente, espalhada pelo Brasil afora, que é filha,
neta ou bisneta de indígenas. A maioria dessas pessoas têm poucas informações
sobre sua origem e não sabem a qual etnia pertencem; tal condição não costuma
ser problema para que um negro se assuma e seja reconhecido como tal, mas
muitas vezes se torna empecilho no caso dos indígenas. Esta dificuldade pode
ser atribuída a vários fatores:
-herança colonial: entre os
bandeirantes, por exemplo, havia muitos filhos de índias educados como brancos,
que se distinguiam de quem eles escravizavam muito mais em termos culturais do
que raciais. Mais tarde, com a escravização de africanos, o corpo passou a ser
a principal forma pela qual estes eram identificados, enquanto indígenas e
descendentes eram negados como tal –fosse para autoafirmar a porção europeia do
branco brasileiro, fosse para negar o
direito dos povos nativos a suas terras.
-discurso da extinção: todas as ciências
desde o século XIX previam a extinção dos indígenas combinada com diluição
deles na formação do povo brasileiro –ideia expressa precocemente na omissão
dos nomes das etnias nos registros de nascimento. Atualmente, a despeito do noticiário,
a ideia de que indígenas são povos do
passado –dominante até o século XX –ainda sobrevive no discurso de alguns
professores.
-manutenção das diferenças étnicas no
território: na diáspora africana houve um processo cultural complexo, no
qual elementos de várias etnias foram combinados e relações entre povos foram
reestruturadas, num lugar estranho a todos eles e separado por um oceano das
terras de origem. A cultura afro-brasileira nasceu daí. No caso dos indígenas,
as matrizes culturais encontram-se no mesmo território onde vivem os
descendentes, sem que tenham havido combinações interétnicas significativas, e
o próprio termo genérico indígena tem
bem menos importância que autodenominação de cada povo. A postura em relação
aos descendentes é variável, principalmente quando estes desconhecem a própria
etnia.
-desconfiança dos próprios
indígenas: há casos de pessoas não-indígenas que
conseguiram ser reconhecidas como pertencentes a algum povo originário, com
objetivo de manipulação política, exploração econômica da imagem ou acesso indevido
a direitos específicos e à posse da terra; isso faz com que muitos indígenas só
reconheçam quem comprovadamente nasceu e se criou em aldeia. Uma distinção mais
bem definida entre os que nasceram dentro ou fora das aldeias, que proteja os
primeiros sem desprezar os segundos –como há entre os quilombolas e o restante
da população negra –talvez seja um caminho.
Assim como a pessoa que se
autodeclara negra acena para o comprometimento com a herança africana, com o
bem-estar e com a garantia de direitos para seus descendentes, quem se
autodeclara indígena dá visibilidade a esta presença e abre espaço para que se
tenha uma atenção maior às populações que compartilham deste pertencimento
étnico-racial; seria uma forma de reverter um processo de séculos de destruição
de povos e de apagamento de seus elementos culturais. Sustentar este parentesco
poderia abrir caminho para uma atitude mais comprometida com o futuro dos
indígenas neste país; levaria a uma reflexão coletiva sobre a categoria dos pardos, que é tomada sempre como
afro-brasileira, embora nela se encontre também o resultado da dispersão de
inúmeros povos originários deste chão. Um olhar mais atento sobre certos
costumes herdados de gerações anteriores poderia revelar elementos
sobreviventes de várias culturas, algumas para sempre desintegradas, outras a
espera de reencontros.
Na minha busca por uma história
familiar que foi negada e escondida, pude encontrar não só o que restava da
cultura do meu povo, mas também fortalecer minha identidade no contato com
outras culturas indígenas, na solidariedade com suas lutas, na vivência do cotidiano
das aldeias que ainda resistem no Brasil. Acredito que outras pessoas que
procurarem fazer o caminho de volta
também podem reatar os laços com o povo do qual são herdeiras –e mesmo que isso
não seja possível, devido ao apagamento das pistas que poderiam levar ao
desejado reencontro, ainda resta o avivamento de seu pertencimento indígena ao
abraçarem a resistência de todas as outras etnias nativas que ainda existem
neste país.
Muito bem escrito, parabéns!
ResponderExcluirfoi acolhedor demais ler isso.
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