quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Descolonização do currículo

Como há entre nós pessoas que manifestam dúvidas a respeito do que seja a descolonização do currículo, acredito que devamos fazer, como diria o professor Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes, uma “leitura especular”: o que caracteriza a colonização do currículo? Penso que à hierarquização dos sujeitos, típica da sociedade colonial que nestas terras foi instaurada, corresponde uma hierarquização dos saberes produzidos por estes sujeitos. Seguindo esta lógica é que o eurocentrismo tem pautado o que é ensinado por aqui desde os jesuítas.
A escola que aqui se criou e desenvolveu até hoje tem sido eurocêntrica no conteúdo e na forma, o que é totalmente coerente com sua origem europeia. E a ciência moderna, que ao longo dos últimos séculos foi tomando o lugar da catequese e das “boas letras” na composição do currículo, é também ela uma expressão da hierarquização de saberes espelhada na hierarquização dos sujeitos. A ideia do “registro de patente” serve bem para se entender a relação criada entre os saberes dos diferentes povos: muitos “descobridores” ou “pioneiros” europeus se apoiaram em conhecimentos acumulados ao longo dos séculos por diferentes povos e culturas, da mesma forma que cientistas vão buscar o conhecimento dos povos da floresta a respeito das propriedades de certas plantas, e o registro dos grandes nomes na história equivale ao registro de patente que se faz de uma planta amazônica. A formação científica que nós, professores, recebemos, e com a qual elaboramos o currículo da escola de hoje é baseada em grande medida em “patentes” europeias de grandes descobertas científicas. Mas essa ciência moderna não surgiu do nada, tampouco tem se mantido sozinha; apenas não foram evidenciadas ao longo dos séculos as bases não necessariamente europeias do conhecimento que no Velho Mundo se consolidou. Para ficar num exemplo: meus antepassados Puri foram os guias de Spix e Martius em seu trabalho de classificação da flora e da fauna no Sudeste brasileiro, e os próprios pesquisadores reconheceram o quanto se basearam no conhecimento indígena sobre o ecossistema local, expresso nos vocábulos da língua nativa que contemplavam a variedade de espécies e a relação entre elas. Mas quantos de nós, afinal, sabemos disto?
A luta pelo reconhecimento dos saberes de outros povos –no Brasil a ênfase recai nas duas outras grandes matrizes, africana e indígena –tem gerado uma reação exagerada, como se o que estivesse em pauta fosse uma nova configuração hierárquica, onde o conhecimento produzido ou sistematizado por europeus ficaria em posição inferior. Evidentemente, não é disto que se trata, pois se a hierarquização dos saberes está diretamente ligada à dos sujeitos, esta última, por sua vez, tem sido combatida em nome da abolição dos privilégios amparados no critério étnico-racial; ações afirmativas são propostas com o intuito de equilibrar a balança social que pende há séculos para o lado dos colonizadores e seus sucessores. A luta pela igualdade de direitos se espelha necessariamente no reconhecimento igualitário dos saberes.
Ainda que houvesse uma vontade real da maioria dos professores ou de algum governo no sentido de substituir a hegemonia europeia por uma afro-indígena (!) , isto seria impraticável por uma simples razão: não conhecimentos o suficiente destas matrizes para tanto, em parte porque nossa formação não as tem contemplado, em parte porque a própria dinâmica de produção e disseminação destes conhecimentos não obedece as formas cristalizadas na escola e na universidade; negados e atacados por estas instituições, seu lugar continuou sendo o seio das populações que os criaram.

Se a colonização do currículo expressa uma hierarquia de saberes baseada na origem étnico-racial, a descolonização passa necessariamente pela construção de uma escola que garanta a participação dos sujeitos negados por estes critérios, para que eles tragam consigo não somente a carência por direitos iguais, mas sua capacidade de produzir conhecimento em bases diferentes das que historicamente se consolidaram nos currículos produzidos até hoje. Um novo currículo, aberto a esta perspectiva, utilizará necessariamente os conhecimentos advindos da ciência moderna de matriz europeia, mas reconhecerá os limites desta e suas influências de outras culturas, abrindo espaço para que ela dialogue com os saberes trazidos pelos sujeitos antes excluídos do espaço escolar ou silenciados por ele.

2 comentários:

  1. me ajudou a refletiiir e a pensar numa apresentação de de trabalhooo, obrigadaaaa xD

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  2. parente já ouviu falar sobre a aldeia maraka´nà? lá resiste a universidade indígena maraka´nà. acredito que será a primeira universidade indígena do "brasil". seu texto me ajudou muito, meu pré-porjeto é sobre epstemologia originária e nem vim aqui por isso, estou lendo seus textos pois estou resgatando saberes do nosso povo. obrigadoo.

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